O Triângulo das Bermudas: o mistério que fascinou o mundo e o que os dados dizem hoje
Navios que desaparecem, aviões que somem, bússolas enlouquecidas. Durante décadas, o Triângulo das Bermudas foi sinônimo do inexplicável. Revisamos os casos mais famosos e por que os especialistas acreditam que não existe mistério nenhum.
Foto: Wikimedia Commons · CC0
Poucas lendas modernas renderam tanto assunto. Best-sellers, documentários, filmes e, agora, milhares de vídeos no TikTok com trilha sonora sinistra: o Triângulo das Bermudas, uma área do Atlântico entre Miami, as Bermudas e Porto Rico, tem fama de "engolir" navios e aviões sem deixar rastro. O que há de verdade nisso?
Como a lenda nasceu
A expressão "Triângulo das Bermudas" apareceu em 1964 num artigo do escritor Vincent Gaddis numa revista dedicada ao paranormal. Mas o grande impulso veio em 1974 com o livro O Triângulo das Bermudas, de Charles Berlitz, que vendeu milhões de exemplares e atribuía os desaparecimentos a fenômenos que iam da Atlântida a extraterrestres.
Os casos mais famosos
O Voo 19 (1945)
Cinco bombardeiros torpedeiros da Marinha dos Estados Unidos decolaram de Fort Lauderdale num voo de treinamento. O líder da formação informou que as bússolas falhavam e que não sabia onde estava. Os aviões nunca voltaram, e um hidroavião enviado para procurá-los também desapareceu. É a história central do mito.
O que costuma ser omitido: a investigação da Marinha apontou para a desorientação do líder, que achou estar sobre as ilhas da Flórida quando provavelmente estava sobre as Bahamas, e seguiu um rumo que os afastou da costa até acabar o combustível, à noite, com mau tempo e mar agitado. O hidroavião de resgate, um modelo apelidado de "tanque de gasolina voador" por problemas com vapores de combustível, foi visto explodindo no ar por um navio que passava.
O USS Cyclops (1918)
Um enorme cargueiro da Marinha americana desapareceu com mais de 300 pessoas a bordo. Ele estava sobrecarregado de minério de manganês e com um motor avariado. Muitos especialistas acreditam que afundou numa tempestade ou por falha estrutural; seus navios-irmãos também se perderam no Atlântico Norte durante a Segunda Guerra Mundial, longe do Triângulo.
O que os dados dizem
Aqui está o ponto principal: não há provas de que no Triângulo desapareçam mais navios e aviões do que em outras áreas igualmente movimentadas. Isso é o que afirmam a Guarda Costeira dos EUA, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) e a seguradora Lloyd's de Londres, que não cobra prêmios mais altos para atravessar a área.
Em 2017, o cientista australiano Karl Kruszelnicki lembrou que a área é uma das mais movimentadas do mundo, perto da costa dos EUA e do Caribe, e que a porcentagem de incidentes é a esperada pela quantidade de tráfego.
Além disso, o jornalista Larry Kusche revisou em 1975 os casos dos livros sensacionalistas e descobriu que muitos eram exagerados, tinham datas erradas, aconteceram em outros oceanos ou simplesmente nunca existiram.
As explicações naturais
- O clima: é zona de furacões e de tempestades repentinas muito violentas.
- A Corrente do Golfo: é rápida e forte, e pode levar destroços para longe em pouco tempo.
- A profundidade: a fossa de Porto Rico passa dos 8 mil metros, uma das mais profundas do Atlântico; destroços podem ser impossíveis de recuperar.
- A bússola: em algumas áreas o norte magnético e o geográfico quase coincidem, o que podia confundir navegadores pouco experientes.
- Erros humanos: o grande número de embarcações de lazer com pouca experiência aumenta o risco.
As teorias mais chamativas
Com os anos surgiram todo tipo de hipóteses: restos da Atlântida, portais para outras dimensões, óvnis, bolhas gigantes de metano que fariam os navios perder flutuação ou "ondas monstruosas". Algumas ideias físicas, como as ondas extremas, existem na natureza e podem ocorrer em muitos oceanos, mas não há provas de que expliquem os desaparecimentos nessa área em particular. As demais não têm respaldo científico.
Nas redes também viralizou em 2016 a teoria das "nuvens hexagonais" que criariam "bombas de ar", baseada num documentário. Meteorologistas a desmentiram: nuvens com bordas retas são comuns e não geram esses ventos.
Por que continua prendendo nossa atenção
A lenda junta tudo o que torna uma história irresistível: o mar imenso, o desaparecimento sem vestígios e a sensação de que existe algo que a ciência "não quer contar". E o mito se alimenta sozinho: cada novo incidente na área é visto como prova, enquanto as milhares de travessias sem problemas não viram notícia.
Hoje, cruzeiros, cargueiros e voos comerciais atravessam o Triângulo todos os dias sem nenhum contratempo. O verdadeiro mistério, talvez, seja por que uma história tão desmentida continua tão popular. A resposta é humana: adoramos mistérios, e alguns são bons demais para deixar para trás.
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